Arraes, o homem que honrou a confiança do povo

16/12/2019 (Atualizado em 17/12/2019 | 19:26)

Um dos grandes líderes políticos da esquerda brasileira, Miguel Arraes de Alencar teria completado 103 neste domingo, dia 15 de dezembro. Doutor Arraes, como era chamado pelos políticos, ou “Pai Arraia”, como se referiam a ele, carinhosamente, homens e mulheres do povo, nasceu em Araripe, interior do Ceará, e construiu sua trajetória política em Pernambuco.

Teve sua vida pública marcada pelo compromisso com a redução das desigualdades sociais, a melhoria das condições de vida no campo, a conquista de direitos e a luta em defesa da democracia brasileira. Atitude que o levou, no golpe civil-militar de 1964, à deposição do governo do Estado, à prisão e, finalmente, a um longo exílio na Argélia.

Há um ano, Arraes passou a figurar no Livro de Aço dos Heróis e Heroínas da Pátria. Sua longa trajetória política inclui mandatos como deputado estadual, prefeito, deputado federal, três vezes governador, além de ser refundador e presidente nacional do Partido Socialista Brasileiro. O reconhecimento também veio da arte e do samba, no Carnaval de 2016. “Cresci, sonhando renovar os sonhos/Revitalizar a vida/Que se equilibra sobre palafita/Dar pra gente tão sofrida/Dignidade e amor”, cantaram centenas de milhares de pessoas, em homenagem ao centenário de Arraes, durante o desfile da Unidos da Vila Isabel, no Sambódromo do Rio de Janeiro.

Advogado e economista, Arraes foi um homem à frente de seu tempo. Pensou um projeto de país para o Brasil e dedicou a maior parte de sua vida a mudar a realidade do povo mais sofrido de Pernambuco e a defender a democracia. “Miguel Arraes sustentou a ideia de construirmos um projeto de nação, o que está pendente hoje. Por toda a sua vida, honrou a confiança do povo, o que lhe rendeu ameaças e perseguições. Mas, o que é mais importante, garantiu a eterna admiração e o reconhecimento popular”, lembra o presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira. “Arraes faz muita falta neste momento de retrocessos civilizatórios, de ameaças à democracia, de desvalorização da política, de abandono das classes mais pobres. Ele seria o primeiro a ocupar a trincheira na defesa dos direitos humanos e dos valores democráticos”, continua Siqueira.

Embora não esteja entre nós, completa o socialista, "Arraes deixou seu exemplo de cidadão, homem público, dirigente partidário e líder político, além de suas ideias, sua visão de mundo e sua disposição incansável de fazer o bom combate, sempre do lado certo da história”.


Ousadia e pioneirismo

Na prefeitura do Recife, em 1961, mobilizou artistas, intelectuais e estudantes no Movimento de Cultura Popular, levando educação e cultura às multidões de miseráveis dos morros e alagados da capital pernambucana. Em seu segundo governo, criou a fundação de amparo à pesquisa mais antiga do Brasil, depois da de São Paulo. E, com um intenso programa de eletrificação rural, incluiu 200 mil famílias pernambucanas no mundo da produção e do consumo em bases modernas. Pernambuco é, hoje, o Estado nordestino com maior índice de eletrificação rural graças a esse trabalho.

Conforme dizia o próprio Arraes, modernidade, para quem não tem acesso a energia ou água tratada, pode ser “um bico de luz e uma torneira jorrando água em casa”. Ainda no seu primeiro governo, interrompido pela brutalidade da ditadura de 64, ele implantou o Lafepe, laboratório pioneiro que, até hoje, produz remédios a baixíssimo custo para a população, sendo o embrião de projetos como o Farmácia Popular. Em 1987, pôs em funcionamento o primeiro laboratório de biotecnologia do Nordeste. E, com essas iniciativas, uniu o saber dos cientistas à sabedoria do povo no desenvolvimento de soluções adequadas aos problemas concretos da população.

Entre as iniciativas pioneiras de Arraes em Pernambuco, que serviram de inspiração para o país, estão o método de alfabetização de adultos desenvolvido pelo Movimento de Cultura Popular, sob a liderança de Paulo Freire, o Acordo do Campo, que garantiu pela primeira vez o pagamento de direitos aos trabalhadores rurais, e o Programa Cidadão, que registrou mais de 1 milhão de pessoas em Pernambuco.

O ex-governador foi responsável pela criação da primeira secretaria de Ciência e Tecnologia e do primeiro laboratório farmacêutico do Nordeste, além de implantar uma rede de farmácias para vender medicamentos mais baratos a população carente.

“Moderno. Esta é a palavra certa, talvez para provável surpresa daqueles que têm uma visão restritiva do termo (…) Não há modernidade no vácuo – ela existe em circunstâncias históricas concretas. E a modernidade que se vê na trajetória de Miguel Arraes é de outra natureza. Nasce de seu enraizamento em nossa experiência social. E da consistência de suas ações”, escreveu o neto Eduardo Campos, em agosto de 2005, por ocasião da morte do avô.

Fonte: Comunicação/PSB nacional

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