#ElasQueLutam: “a juventude é o agora”, afirma Juliene Silva

17/03/2021 (Atualizado em 17/03/2021 | 16:41)

Divulgação Socialismo Criativo
Divulgação Socialismo Criativo

Nesta entrevista da série especial #ElasQueLutam, em comemoração ao Dia Internacional das Mulheres, celebrado no dia 8 de março, o Socialismo Criativo conversou com Juliene Silva (PSB-RJ) que, junto com o Partido Socialista Brasileiro (PSB), ajuda, desde os 16 anos a construir um país melhor, mais igualitário e com mais respeito e liberdade.

Ela começou a atuar na política ainda cedo, aos 12 anos Juliene já acompanhava a mãe, assistente social, nas conferências da categoria em seu município, Pinheiral (RJ). Aos 14, já era presidente da associação de moradores do bairro onde morava e, aos 16, iniciou sua militância partidária no PSB.

Secretária-geral da União Nacional dos Estudantes Secundarista (Ubes) em seu segundo mandato, ela vê em ambas as frentes, social e partidária, a convergência perfeita entre necessidade de transformação e ação. Candidata à prefeita de sua cidade, enfrentou com dignidade e força uma máquina política velha que, apesar de não dar espaço para a transformação, não fez e nem nunca fará Juliene desistir de ocupar os espaços.

Leia abaixo a entrevista com Juliene Silva.

Socialismo Criativo – O que a motivou a atuar partidariamente?

Juliene Silva – Foi durante a construção desses processos do movimento social. Eu sempre via que as atuações eram mais fortes e mais organizadas dentro desses espaços partidários. Que dentro dessa organização a gente conseguia ter mais força para conquistar as coisas, para participar dos processos. E eu entendi também que a gente precisava, para além de ocupar os espaços cíveis, ocupar também os espaços políticos, os cargos públicos que existem. E, para isso, precisava de um partido. E aí eu fui fazer essa transição, entrando em partidos, conhecendo quais eram as filosofias, qual era a forma em que funcionava, quais eram as pessoas que estavam à frente, até chegar ao PSB que foi a história que mais me encantou, o formato de atuação, que mais se assemelha ao que eu acho que é certo para um partido político. E estou aqui até hoje, dos meus 16 até os 25.

Socialismo Criativo – Ao longo de sua trajetória no PSB, quais acontecimentos considera mais importantes?

Juliene Silva – Se for pensar em acontecimentos partidários, acho que a campanha de Eduardo Campos [eleições 2014] , para mim, foi um marco muito grande dentro do nosso partido.

E o outro processo que acho que me marca muito é a Autorreforma que está acontecendo. Tem sido um processo em que tenho visto o PSB que me apaixonei, atuando da forma que acredito muito que seja correto. Acho que partido é um meio e, para ser um meio, ele precisa estar constantemente se modificando, se reinventando, se conectando com a sociedade.

A própria campanha de Eduardo [Campos] também é um exemplo desse processo do PSB se conectando, porque o Brasil necessitava muito naquele momento (necessita até hoje) de uma outra via, uma via fora da polarização, uma via que concretamente consiga implantar os projetos socialistas no nosso país. E agora, a gente vem de novo nesse caminho de construir o PSB que consegue dialogar com as demandas sociais atuais, com esse projeto de Autorreforma que a gente tem. Eu acho que são os dois grandes pontos do PSB que mais me marcaram enquanto militante do partido

Socialismo Criativo – Na sua atuação política (fora do PSB), qual momento lhe é mais memorável?

Juliene Silva – Um marco pessoal foi quando tive oportunidade de construir a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes). Porque a atuação partidária e a atuação dentro do movimento estudantil me mostram tudo o que eu posso fazer. Me mostram que dá para ter um caminho diferente, uma vida diferente, e que isso pode ser construído por meio de políticas públicas. E mais, que eu podia fazer parte da construção dessas políticas públicas.

Socialismo Criativo – Nas últimas eleições municipais, realizadas no ano passado, você foi candidata à prefeita em sua cidade (Pinheiral-RJ). O que aprendeu com a experiência? Pretende pleitear outros espaços públicos?

Juliene Silva – Foi uma experiência incrível. Eu tinha uma visão, antes de entrar no pleito, de que ele seria muito difícil, porque estava procurando uma coisa que não é comum dentro da minha cidade. Estava propondo um projeto de governo completamente diferente do que já foi proposto em qualquer momento da existência de Pinheiral. Propus uma candidatura completamente diferente. Nós nunca tivemos candidatos que fossem, ao mesmo tempo, mulheres, jovens e negros pra nenhum cargo. Para a Prefeitura, então, não teve nem essas três opções separadas! Foi a primeira vez que alguém se colocou tendo o meu fenótipo, as minhas especificidades. Foi muito interessante, porque achei que eu ia receber muita resistência municipal. Mas o que a gente recebeu, na realidade, foi a resposta do público de que Pinheiral precisava de representatividade, sabe? Que precisa de um novo caminho de um novo espaço.

Uma frase que a gente usou muito durante a campanha que eu trago comigo até hoje é ‘seja a mudança que você quer ver no mundo’, de Gandhi. Essa frase nunca soou tão importante quanto nesse momento da campanha, porque a gente queria ver mudanças na cidade, só que não adiantava a gente confiar que pessoas que não estavam comprometidas com essa mudança iriam fazê-la. Então precisava colocar alguém lá comprometido e eu acabei sendo esse nome. E isso me mostrou também a necessidade de galgar espaços e o quanto a representatividade, sim, importa. Muitas pessoas jovens, de meninas negras, vieram conversar comigo, pessoas que eu conheci e hoje fazem parte da minha trajetória política e mantemos contato até hoje. Eles sentiram em mim uma representatividade.

O número de pessoas que a gente conseguiu trazer para fazer construções políticas, entendendo a necessidade desse espaço [Prefeitura], e que ele pode ser feito de um formato diferente do que a velha política, também foi muito grande. Então esse foi outro aprendizado muito importante que eu tive.

Por último, tenho que dizer que é difícil. Principalmente psicologicamente, porque a gente estava entrando no embate muito profundo, com uma máquina muito grande. Mas me mostrou que é possível, que dá para chegar lá. Infelizmente, não foi dessa vez, mas a gente já conseguiu ver a diferença, a gente já conseguiu ver o resultado dentro da cidade, das possibilidades de modificação. E por conta de tudo isso, inclusive, sim, eu pretendo me candidatar outras vezes em vários espaços e pleitos políticos, porque acredito que esse é o início do caminho. É isso, a gente quer ver uma mudança no mundo, então a gente precisa ser essa mudança que a gente quer ver no mundo.

Socialismo Criativo – Na sua opinião, quais os principais desafios da juventude hoje?

Juliene Silva – Quando a gente pensa na juventude como um todo, nosso principal desafio é não cometer os mesmos erros dos nossos pais e avós. Parece algo muito doido, mas do ponto de vista político, por exemplo, quando a gente olha o governo atual, ele não entrou sozinho, ele foi eleito e a juventude tem muito peso nessa eleição. E quando a gente diz ‘não cometer os mesmos erros’, estamos falando de uma geração em que existiram pessoas que apoiaram a ditadura, apoiaram o fascismo. E aí a gente não pode cometer esse erro de novo.  Esse é o desafio não apoiar o fascismo, não apoiar o racismo, não apoiar a LGBTfobia, parar de normalizar coisas que os nossos pais e os nossos avós politicamente normalizavam.

Já o grande desafio da juventude partidária, a juventude que já compreende esse processo, a juventude que já está organizada, é conseguir fazer com que o outro desafio se concretize. Porque é nossa responsabilidade fazer com que essa linguagem chegue aos outros jovens. A gente é que tem a linguagem mais próxima, a gente aqui está dentro do processo, a gente é que, querendo ou não, vai ser a cara da esquerda do Brasil daqui alguns anos. Então somos nós que precisamos renovar, que precisamos nos conectar com as pessoas, que precisamos construir uma linguagem que seja acessível. Para o jovem de periferia, pro jovem do Nordeste, pro jovem do Sudeste, pro jovem do Norte. Uma linguagem acessível para todas as classes sociais, para a juventude trabalhadora, para o jovem estudante. Esse é o nosso desafio enquanto juventude partidária.

Socialismo Criativo – Atualmente as pessoas têm uma visão muito negativa da política. Grande parte dos jovens, que não estão inseridos em entidades como a UBES e a UNE [União Nacional dos Estudantes], tendem a não se envolver nos debates e movimentações políticas por descrença até desconfiança. Como seguir na luta pela mobilização da juventude para pautas urgentes, como o genocídio da juventude negra, a precarização da escola pública?

Juliene Silva: Com todos esses anos de construção na Ubes, tenho uma visão um pouco diferente desse processo. Hoje em dia, não acredito mais que a juventude está desacreditada da política, ela está desacreditada dos políticos. O que a gente precisa fazer para reconstruir esse processo é demonstrar o que a construção de um espaço político pode fazer, é demonstrar a modificação social que está dentro da construção de um espaço político organizado. Para fazer isso, é muito simples, porque você não precisa livros grandes para mostrar. Você não precisa de frases feitas para mostrar isso, você precisa ir lá e mostrar o que você faz no seu dia a dia. Isso funciona e tem um impacto tão grande nessa juventude que é surreal.

A gente pode ter descrença na política, mas ao mesmo tempo a gente tem um movimento estudantil gigante dentro do nosso país e isso não pode ser ignorado. Então como é que a gente faz para conseguir ampliar espaço, por exemplo? A gente faz isso demostrando, sendo a ponte entre a política e a juventude. A gente faz isso sendo jovens que se candidatam, e aí outros jovens vendo que também podem se candidatar, desde que estejam organizados. A gente faz isso indo para rua e conseguindo melhoria, e voltando para a escola e mostrando para esses jovens que a gente conseguiu. Aí quando a gente vai para a rua de novo, esse jovem entende que é possível sim. O grande ponto dessa grande descredibilização é porque a gente olha para o Congresso Nacional, você pensa numa jovem como eu, mulher, negra, que olha para o Congresso Nacional e não vê praticamente ninguém lá. É óbvio que eu não vou me sentir representada dentro desse espaço. O que a gente precisa fazer é levar a representatividade e dizer que essa representatividade só consegue ser alcançada se eles também estiverem participando desse processo. E eu vou te dizer que as experiências que tive dentro do movimento estudantil secundarista, passando em escola, conversando com jovem, a gente consegue fazer isso, desde que estejamos falando uma mesma linguagem. 

Socialismo Criativo – Na sua autorreforma o PSB incluiu o capítulo “Direito à Juventude Plena”. Você participou da construção destas teses? Como foi esse trabalho?

Juliene Silva: Participei. Nós participamos em conjunto da construção desse processo da Autorreforma do PSB, foi para mim um trabalho incrível mesmo. O PSB tem demonstrado dentro desse processo uma reinvenção própria e uma facilidade de se reconectar com as demandas sociais, que a gente precisa. E para fazer isso é algo tão simples, é meio que abdicar de velhos conceitos, por novos que não se contrapõem aos velhos. Na realidade, eles se complementam e eles acrescentam para que isso fique mais de acordo com a realidade atual. Então, participar desse processo, principalmente desse espaço de construção das nossas teses para juventude, foi conseguir ver que o PSB é um partido que consegue compreender quais são as nossas demandas atuais. Que é o partido que consegue compreender que a juventude é o caminho para conseguirmos efetivas mudanças políticas e que não é o caminho futuro, a juventude não é o futuro, a juventude é o agora. A juventude já se candidata, ela já consegue estar dentro dos espaços, a juventude tem sim capacidade política de debater, de construir, de inventar teses, de criar novos espaços, de se conectar.

Socialismo Criativo  Neste trecho da autorreforma que trata especificamente das questões voltadas para a juventude, o PSB cita a “necessidade de aprofundar o debate sobre a materialização, pelo Estado nacional, do direito das mulheres, acompanhadas e orientadas por profissionais do SUS, realizarem aborto, quando caracterizada a gravidez indesejada”. Essa tese de estar entre a juventude demonstra que este ainda é o grupo mais preocupado com a quebra desse tipo de “tabu” da sociedade, como outro exemplo a descriminalização das drogas?

Juliene Silva – Não acho que a gente é a parcela da população mais preocupada, eu acho que a gente é a parcela da população mais disposta a fazer a discussão, porque não é que não tenham pessoas mais velhas, até mesmo na mesma proporção de jovens, em outros espaços discutindo isso. Mas a cada ano que passa, a gente tem sempre uma tendência de ter uma liberdade maior. Ter o direito aos nossos corpos, ao nosso território, isso pra juventude é algo muito latente, é algo para agora, é um projeto que não pode ser deixado para depois. Então acredito muito que nós temos esses debates mais amplificados, que é mais pontuado dentro da juventude, que o processo de legalização das drogas e do aborto por conta disso, por termos uma visão mais libertadora do processo. Que é uma visão que se fundamentou a partir das teses construídas pelas pessoas que vieram antes de nós no partido, que não é uma visão emergiu da juventude atual.

Até porque, em relação à questão das drogas e do aborto, a gente vê o quanto o Brasil está atrasado nisso. Tem vários países que já estão há anos-luz na concretização dessas questões enquanto políticas públicas de saúde, enquanto aqui no Brasil a gente caminha muito lentamente. E não é uma desconstrução só política que precisa ser feita, é uma desconstrução social, porque a gente que ainda existe uma parcela muito grande da população que precisamos fazer o convencimento.

 Socialismo Criativo – Na tese 408 da Autorreforma o PSB afirma que “compromete-se a definir estratégias específicas para estimular a participação de jovens na política, que inclua a formação de quadros e a relação do Partido com as organizações juvenis e estudantis”. Você hoje atua tanto partidariamente, quanto como secretária-geral da UBES. Como acha que essa relação entre as duas entidades pode ser benéfica para a sociedade?

Juliene Silva – São organizações diferentes que convergem na mesma direção. Quando a gente tem uma organização de um movimento estudantil, a gente tem uma organização que está dialogando com os jovens da sociedade para melhoria da educação. Quando a gente tem um partido político a gente tem um espaço que está dialogando com a sociedade para melhoria da educação, só que ele vai fazer isso dentro do Congresso Nacional, esse partido vai fazer isso ocupando espaço político institucional. Então os dois espaços convergem para o mesmo local, eles dialogam na mesma direção então quando a gente consegue ocupar um espaço como a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas, dialogar com pessoas de diversos partidos, de diversas localidades do país, sobre quais são as melhores pautas, quais são as pautas mais importantes, qual é o melhor direcionamento para nossa política de educacional, por exemplo, e a gente pega todas essas pautas e traz de volta para o PSB e, dentro do PSB, a gente consegue utilizar o espaço institucional para dialogar com os nossos deputados, senadores, governadores, vereadores, esses dois espaços se complementam.

Trabalhar nos dois espaços é necessário porque um não existe sem o outro. Não adianta dialogar dentro dos movimentos estudantis se a gente não tem parlamentares que transformem aquilo em políticas reais. Assim como, se a gente estiver dentro do espaço institucional, mas não tiver entidades como a Ubes e a UNE para dialogar com a população e conseguir trazer o que realmente o que vai realizar a modificação social, a gente não vai avançar.

Fonte: por: Jaqueline Nunes - Socialismo Criativo

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