Comandantes das Forças Armadas pedem demissão ao mesmo tempo

30/03/2021 (Atualizado em 30/03/2021 | 17:03)

Sergio Lima/AFP
Sergio Lima/AFP

Há um dia de completar 57 anos do Golpe de 1964, os comandantes das três forças militares Exército, Marinha e Aeronáutica pediram renúncia conjunta por discordar do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). É a primeira vez na história que todos os comandantes das Forças Armadas pedem demissão ao mesmo tempo.

Todos reafirmaram que os militares não participarão de nenhuma aventura golpista, mas buscam uma saída de acomodação para a crise, a maior na área desde a demissão do então ministro do Exército, Sylvio Frota, em 1977 pelo presidente Ernesto Geisel.

Pediram demissão ao mesmo tempo Edson Leal Pujol (Exército), Ilques Barbosa (Marinha) e Antônio Carlos Bermudez (Aeronáutica). A decisão foi tomada em conjunto e comunicada ao ministro nomeado para a Defesa, Braga Netto, na manhã desta terça-feira (30), e comunicada por meio de nota do Ministério da Defesa.

Comandantes acompanharam ministro demitido

O desembarque histórico de todo o comando das Forças Armadas acompanha a saída do general Fernando Azevedo do Ministério da Defesa. Ele foi demitido pelo presidente Bolsonaro nesta segunda-feira (29) depois de ter recusado várias vezes apoio político ao governo federal.

Há meses Azevedo e Silva vinha se desentendendo com Bolsonaro. O presidente reclamava que as Forças Armadas deveriam dar demonstrações públicas de que apoiavam o seu governo, coisa que o ministro se recusou a fazer. Outro mal-estar entre os dois tinha a ver também com a pressão de Bolsonaro sobre ele para que demitisse o comandante do Exército, general Pujol, o que Azevedo e Silva também não acatou.

O limite da relação entre o ex-ministro da Defesa e Bolsonaro chegou ao ápice na semana passada. Bolsonaro voltou a insinuar que queria o apoio do Exército para aplicar medidas de exceção como o estado de defesa em unidades da Federação que aplicam lockdowns contra a pandemia da Covid-19 e não obteve apoio de Azevedo.

 

“Meu Exército”

O presidente falou publicamente que “meu Exército” não permitiria o lockdown determinado por estados. Enquanto isso, foi derrotado no Supremo Tribunal Federal em sua intenção de derrubar restrições em três unidades da Federação, numa ação que não foi coassinada pelo advogado-geral da União, José Levi — ajudando a levar à sua queda, também na segunda.

O movimento sincronizado dos três comandantes das Forças Armadas desperta temores de que o presidente da República pode estar preparando um autogolpe.

“Forças Armadas não entrarão em aventura”

Em entrevista à revista piauí nesta segunda, o ex-ministro-chefe da Secretaria de Governo de Bolsonaro, general Carlos Alberto dos Santos Cruz, descarta a possibilidade de autogolpe. Ele afirmou que mesmo que houvesse por parte de Bolsonaro alguma intenção de ir contra o estado democrático de direito, o que ele não acredita existir, as Forças Armadas não lhe dariam apoio.

“Não há clima para um golpe de Estado. As Forças Armadas têm uma postura institucional muito forte. Não embarcam nessa onda. As Forças Armadas têm estruturas fortes de comando, de liderança, de hierarquia, de respeito à legalidade. As Forças Armadas e seus comandantes têm consistência grande. Não se imagine que se possa lançar as Forças Armadas em uma aventura. Os militares não ficam embarcando em qualquer canoa. Não é fácil mexer com as Forças Armadas politicamente. Os comandantes são todos muito discretos. Não se envolvem com política. É uma gente séria.”

Carlos Alberto dos Santos Cruz

 

Previsão de Gustavo Bebiano

Em outubro de 2019, pouco mais de um mês depois de ser demitido por Bolsonaro, o advogado Gustavo Bebiano, morto em março de 2020, concedeu uma entrevista para o site Congresso Em Foco. Na ocasião, o responsável pela coordenação da campanha que elegeu o candidato do PSL falou sobre uma eventual tentativa de ruptura democrática e a possibilidade de apoio das Forças Armadas.

“Não acredito que ele conseguiria consolidar uma ruptura institucional, mas tudo indica que ele vai tentar. É muito preocupante. Uma simples tentativa pode gerar muito derramamento de sangue. O Brasil não precisa disso. É um risco real. É difícil precisar o momento, mas que essa hipótese é cogitada na cabeça dos filhos, dele, do entorno, isso é.”

Gustavo Bebiano

Fonte: por: Iara Vidal / Socialismo Criativo

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